Cotação de Ingredientes Guia de Fornecedores Aditivos Ingredientes e Mídia Oficial South America Prêmio BIS 2027 Funcionais e Nutracêuticos
ARTIGOS

Creatina para 55+: nova alegação da Anvisa e os desafios de formulação

Creatina para 55+: nova alegação da Anvisa e os desafios de formulação

Em setembro de 2026, a Anvisa autorizou uma nova alegação para suplementos de creatina, desta vez dirigida a adultos com mais de 55 anos. Pela nova regra, o consumo diário do ingrediente, associado a treino de resistência regular, pode aumentar o efeito do treinamento sobre a força muscular nessa faixa etária. A mudança veio com a Instrução Normativa (IN) nº 470/2026, de 16 de setembro, em vigor desde a publicação, dois dias depois. O texto altera a IN nº 28/2018, que reúne os constituintes, os limites de uso e as alegações permitidos em suplementos alimentares no país.

Até então, a única alegação aceita para a creatina tratava do desempenho físico em exercícios curtos, repetidos e de alta intensidade. A nova redação leva o ingrediente do universo esportivo para o do envelhecimento.

As condições da alegação

A frase só pode ser usada quando a porção diária do produto respeita o mínimo e o máximo de creatina definidos nos anexos da IN nº 28/2018. Em 2025, a agência elevou o limite máximo de 3 g para 5 g por dia. O argumento técnico foi que mínimo e máximo iguais, como previa a regra original, não deixavam margem para perdas ao longo da vida de prateleira nem para a variação natural das análises. As restrições a gestantes, lactantes e menores de 19 anos continuam valendo.

Uma alegação equivalente existe na União Europeia desde 2017. Lá, as condições incluem 3 g por dia e treino de resistência ao menos três vezes por semana, por várias semanas, com cargas crescentes. O parecer da EFSA, a autoridade europeia de segurança alimentar, concluiu que o efeito depende do consumo diário: a mesma dose tomada apenas nos dias de treino não mostrou resultado.

Novos formatos no mercado

O interesse pela creatina já ultrapassa o pó tradicional. Nos Estados Unidos, dados da consultoria SPINS apontam alta de 60,6% nas vendas do ingrediente em um ano e de 70,1% nas vendas de gomas de creatina no período de 52 semanas encerrado em setembro. Barras, bebidas prontas, pudins e misturas para café também passaram a levar o ingrediente.

Do lado da oferta, as empresas fabricantes também investem cada vez mais. No Brasil, a Brasnutri, associação do setor, estima com base em dados da Euromonitor que o mercado de suplementos cresceu 15% em 2025, para cerca de R$ 7,6 bilhões.

O problema da creatinina

A dificuldade técnica está na química do ingrediente. Em pó, a creatina monohidratada é muito estável: uma revisão científica de 2022 relata ausência de degradação detectável a até 40 °C por mais de três anos.

Em meio aquoso, porém, a molécula sofre ciclização, isto é, fecha-se sobre si mesma e se converte em creatinina, um subproduto de degradação. A reação acelera quando o pH cai e a temperatura sobe. A faixa mais estável fica entre pH 6,5 e 7,5, enquanto sucos e bebidas esportivas, com pH entre 2,5 e 3,5, aceleram a conversão. Dados reunidos em uma revisão de 2011 indicam perdas de cerca de 4% em pH 5,5, 12% em pH 4,5 e 21% em pH 3,5 após três dias a 25 °C.

As gomas combinam vários desses fatores: acidez, água e aquecimento durante o processo. Testes encomendados por empresas nos EUA encontraram gomas com teor abaixo do declarado e presença relevante de creatinina; em um deles, 4 de 6 amostras foram reprovadas. No Brasil, em junho de 2026, a Anvisa suspendeu três lotes de gomas de creatina depois que a própria fabricante anunciou o recolhimento por teor fora dos limites.

Como os fornecedores tentam resolver

As soluções seguem três linhas. A primeira é o encapsulamento, que cria uma barreira entre a creatina e o meio aquoso. A segunda é manter o ingrediente separado do líquido até o consumo, com tampas que liberam o pó no momento da abertura. A terceira envolve formas de maior solubilidade, como a creatina monohidratada amorfa, ainda em fase de laboratório em pesquisa acadêmica.

O que muda para a indústria

Para usar a nova alegação, o fabricante precisa garantir a dose mínima até o fim do prazo de validade, sem ultrapassar 5 g diários. Em matrizes ácidas ou úmidas, isso exige estudos de estabilidade, controle analítico de creatina e de creatinina e escolha da tecnologia de proteção adequada.

A comunicação também tem limites: a alegação vincula o benefício ao treino de resistência regular, e não ao consumo isolado do suplemento.