El Niño pressiona cacau, café e óleo de peixe; açúcar e palma vêm depois
O fenômeno El Niño segue ganhando força e já altera o mercado de commodities usadas pela indústria de alimentos e ingredientes, com efeitos desiguais entre produtos. Segundo avaliações da Rabobank e da consultoria Beroe, o impacto físico é imediato no caso de farinha e óleo de peixe, enquanto cacau e café já refletem o risco nos preços e açúcar, óleo de palma e lácteos devem sentir os efeitos mais adiante.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informa que o El Niño continua se intensificando e estima probabilidade superior a 83% de um evento forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027. O órgão ressalva que um evento mais intenso não garante impactos mais severos, apenas aumenta a probabilidade de certos efeitos.
Cacau e café
A Rabobank afirma que o mercado de cacau já incorpora um prêmio de risco ligado ao El Niño e aponta chuva e temperatura durante o desenvolvimento da cultura na África Ocidental como indicadores-chave. A Beroe classifica o cacau como o item de maior risco de compras no curto prazo e projeta alta de preços de quase 9%. A consultoria diz que a chegada mais forte de cargas aos portos e a melhora dos estoques em bolsa limitam uma alta maior, mas prevê volatilidade elevada e episódios de escassez.
No café robusta, a Rabobank avalia que os preços já refletem risco climático futuro. Contratos de vencimento mais distante sinalizam preocupação com floração e produtividade na safra 2027/28, e não apenas com a oferta atual.
Açúcar e óleo de palma
Para o açúcar, a Rabobank indica sensibilidade a condições mais secas na Índia, Tailândia, Indonésia e Malásia, com o maior risco de produção possivelmente em torno de 2027. A Beroe recomenda maior cobertura antecipada para o açúcar indiano. No óleo de palma, o banco aponta o mesmo horizonte e destaca chuvas e níveis de reservatórios na Indonésia, Malásia e Vietnã como indicadores a acompanhar.
Farinha e óleo de peixe
O efeito mais imediato aparece no Peru, onde a pesca de anchoveta, maior fonte mundial de farinha e óleo de peixe, foi severamente afetada pelo aquecimento do oceano. Segundo relatório da Rabobank, os preços da farinha de peixe mais que dobraram em relação ao ano anterior, e os do óleo de peixe subiram mais de três vezes desde julho de 2025. O quadro é relevante para aquicultura, nutrição animal e fabricantes de óleos especiais.
Óleos vegetais, grãos e lácteos
A Beroe observa que o clima é apenas um dos fatores para os óleos vegetais, ao lado de demanda por biocombustíveis, mercados de energia e políticas públicas. A consultoria espera alta de cerca de 2% no óleo de colza europeu e de aproximadamente 5% no óleo de soja dos Estados Unidos.
Nos grãos, o cenário é mais equilibrado. A Rabobank descreve o El Niño como um regime climático mais benigno que a La Niña em partes das Américas, com chuva adicional que pode favorecer a Argentina e o sul dos Estados Unidos. A Beroe afirma que a oferta global de milho é confortável, o que permite compras escalonadas.
No caso dos lácteos, a AHDB, entidade do setor no Reino Unido, não espera efeito direto do fenômeno sobre o volume ou a composição do leite britânico. A entidade prevê efeitos indiretos: seca na Nova Zelândia ou na América do Sul poderia elevar os preços globais, e perdas na produção de grãos poderiam aumentar o custo da ração.








